Posso tomar paracetamol durante a gravidez? Novo estudo diz sim, mas com cautela

2019-01-22 Off Por Rafael Souza

Você está grávida – e já percebeu que bem muita dor ai. E também já percebeu que muitas opções de remédios estão descartadas, incluindo Advil e aspirina. Então, seu primeiro instinto pode ser tomar um paracetamol (ou Tylenol) para aquela dor chata de cabeça? Acredite, não é só você que pensa isso.

Estudos indicaram que cerca de metade das mulheres grávidas em todo o Brasil já tomaram algum remédio durante o primeiro trimestre. Porém, um novo estudo indica que você ainda pode tomar paracetamol – mas sempre com cautela: o uso corriqueiro durante a gravidez precoce tem sido relacionado a atrasos de linguagem em meninas com 30 meses de idade. Absolutamente amedrontador. Mas espere, podemos explicar.

 

A ligação entre paracetamol e linguagem

Algumas pesquisas já indicaram que o desenvolvimento da linguagem é muito sensível a qualquer uma mudança de equilíbrio dos hormônios sexuais andrógeno e estrogênio. E ainda, outra pesquisa indicou também que o paracetamol pode alterar os hormônios, diminuindo a produção de andrógenos e elevando a produção de estrogênio.

Estudos anteriores até já tinham apontados dificuldades de comunicação entre bebês de 18 meses cujas mães fizeram o uso de paracetamol por pelo menos 28 dias seguidos durante alguma fase da gravidez. Sendo assim, os pesquisadores neste estudo queriam responder se realmente aconteceria uma ligação entre o uso de paracetamol da mãe durante a gravidez, no sexo do bebê e se haveria algum problema nas habilidades de linguagem do bebê mais tarde na vida.

O que o estudo indicou

Pesquisadores passaram a analisar 754 mulheres suecas que estavam de 8 a 13 semanas de gravidez, no período entre setembro de 2007 e março de 2010. As mulheres ganharam um questionário solicitando uma estimativa de quantos comprimidos de acetaminofeno elas fizeram o uso, desde que elas haviam descoberto a gravidez. Todos elas também ofereceram uma amostra de urina. A concentração de acetaminofeno foi avaliada entre 140 daquelas mulheres – 60 que tiveram filhas e 80 que tiveram filhos. Cerca de metade das mães que ofereceram a amostra tinham bebês com algum tipo de atraso de linguagem, e metade não tinha.

Na Suécia, o desenvolvimento da linguagem de todos os bebês já é analisada frequentemente com 30 meses de idade, e também inclui uma analise por uma enfermeira e um questionário para os pais. As crianças que conseguem falar menos de 50 palavras nesta idade são rotuladas como deficiências de linguagem. Assim, os autores fizeram a comparação dos resultados dessa nova avaliação com seus questionários de acetaminofeno e também testes de urina, levando em consideração o sexo e outros fatores dos filhos, incluindo o peso, a educação dos pais e se eles fumaram ou não.

Analisando às pesquisas anteriores, os autores indicaram que os atrasos de linguagem eram mais comuns entre os bebês do sexo masculino (12,6%) do que bebês do sexo  feminino (4,1%), e 59% das mães indicaram o uso de paracetamol nas primeiras 8 a 13 semanas de gravidez.

O uso de acetaminofeno, por sua vez, foi relacionada a atrasos de linguagem em meninas, mas não em meninos. No caso das meninas, os atrasos de linguagem foram realmente mais frequentes quando suas mães tomaram pelo menos seis comprimidos de paracetamol em comparação com àqueles cujas mães não usaram nenhum. Por outro lado, os meninos das mães que fizeram o uso de acetaminofeno eram na verdade menos propensos a ter atrasos de linguagem do que aqueles com mães que não aceitavam nenhum.

Embora haja uma ligação dirente entre o uso de paracetamol e uma mudança nos níveis de hormônios relacionados ao sexo, ainda não está claro como isso está ligado à linguagem, explica a autora sênior do estudo, Shanna Swan, Ph.D., Professora de Ginecologia e Obstetrícia e Saúde Pública e Ambiental e Ciências da Reprodução na Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai.

O que este estudo significa para os pais

Como regra geral, as meninas tendem a serem mais desenvolvidas na linguagem do que os meninos, explica Swan. Mas “essa vantagem que as meninas possuem na linguagem pode diminuir quando a mãe faz o uso de Tylenol”, diz ela. É um fato curioso, uma vez que os meninos parecem adquirir mais habilidades linguísticas ao mesmo tempo em que as meninas parecem perder toda sua vantagem, quando suas mães fazem o uso de quantidades significativas de acetaminofeno na fase da gravidez, bebês de ambos os sexos podem ficar em pé de igualdade.

Isso significa que, se você está esperando por um garotão, deve fazer o uso de acetaminofeno? Definitivamente não. “Há outras mudanças perigosas associadas, que você deverá ficar longe”, diz Swan.

O paracetamol, observa Swan, é o único analgésico que não é contra-indicado na gravidez. Mas isso não é porque ainda não se mostrou prejudicial a saúde.

Tudo isso dito, Swan afirma ainda que você não deve evitar fazer o uso de paracetamol se você realmente precisar e seu médico te informar que é seguro. De fato, uma febre alta , por exemplo, pode gerar graves consequências para o seu bebê; Nesses casos, tomar acetaminofeno, como indicado, pelo seu médico é absolutamente necessário.

O que os pesquisadores querem informar é que tomar uma pílula só porque você se sente um pouco mal (nesse caso, sejamos realistas… você irá ficar tomando uma pílula todos os dias durante nove meses). Swan ifnforma que as pesquisas indicaram que entre a metade das mulheres que tomam paracetamol durante a gravidez, cerca de um terço toma por febre e um terço toma para dores de enxaqueca . Isso deixa um terço das mães que usam paracetamol para doenças não é necessariamente destinado a tratar.

Em relação à prevalência do uso não médico, Swan aponta para uma coluna do New York Times Modern Love de 2017 com a seguinte manchete: ‘ O Tylenol pode ajudar a curar um coração partido? ‘Você está chateado, você não pode dormir, você está deprimido – o que seja. Você toma um Tylenol. Esse é o uso que estamos tentando desencorajar ”, diz ela. “Porque vemos riscos com altos níveis de uso, estamos pedindo que as mulheres não tomem sem consultar [um] médico … recomendamos moderação e precaução, e usá-lo apenas quando você realmente precisar.”